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Lei da Agrofloresta #11 - ADUBE PARA DESENCADEAR UM CICLO DE ENRIQUECIMENTO, NÃO PARA ADUBAR.


solo adubado agrofloresta
Distribuição de esterco e pó de rocha na implementação de um novo talhão

Em 2014, iniciava minhas aulas de ciência de solo: capacidade de troca catiônica, tipos de argila, tipos de minerais, classificação de solos, entre outras coisas. 195 horas.aula de “solo” depois, estava me perguntando como aplicar esse conhecimento na agrofloresta.


Tudo o que aprendi nessas horas tem UM propósito principal: aprender a calcular a quantidade de adubo para se obter boas colheitas para determinada cultura em determinado solo.


No entanto, trabalhando com sistemas agroflorestais e aprendendo com professores como Ernst Götsch, entendi que a saúde das plantas não depende de uma equação matemática, mas de uma complexa interação que envolve a vida existente no solo: raízes de plantas, microrganismos, pequenos insetos e animais.


Para nós, seres humanos, a boa nutrição não se trata de consumir uma quantidade exata de cada nutriente, mas também do balanço entre nutrientes, da forma que são fornecidos e da nossa microbiota intestinal, responsável por boa parte da digestão. Isso é verdade também para as plantas.


Na Agricultura Sintrópica, buscamos enriquecer o solo a partir de processos e não de insumos. Ou seja: trabalhamos para que a própria vida no solo melhore a capacidade deste de sustentar e gerar mais vida, mais plantas, mais produção.


Ana Primavesi há décadas já dizia que a riqueza do solo tropical está na sua estrutura e biologia, não na concentração de nutrientess. O que nossas plantas precisam é:


· Um solo que não impeça o desenvolvimento radicular

· Uma microbiota, micro e mesofauna ativa na disponibilização de nutrientes para as plantas


O segundo item fala diretamente da vida no solo. O primeiro fala da estrutura física do solo, que depende desta vida pois, como mencionado no último artigo, é ela que cria a estrutura grumosa que permite a livre expansão das raízes, a retenção de água e a proteção contra compactação e erosão.


Portanto, você quer gerar um ciclo de enriquecimento no seu solo, através da interação planta – solo – microbiota - micro e mesofauna edáficas*, de modo que a cada ano, seu solo possa sustentar uma vida vegetal mais abundante.


Dito isso, fertilizantes tem o seu lugar na agrofloresta, especialmente no momento de implementação. Da mesma forma como o preparo de solo é importante para desfazer compactações e dar as condições mínimas para as plantas crescerem, a adubação inicial tem o propósito de criar condições para as plantas crescerem com vigor e, a partir daí, gerarem um ciclo de enriquecimento através da ciclagem de nutrientes e da vida no solo.


Imagine que seu solo degradado é uma pessoa gravemente desnutrida que mal consegue levar comida à boca. Tal estado requer uma medida drástica, como fornecer alimentação na veia para revigorar seu sistema. À medida que recupera suas forças, a pessoa conseguirá novamente se alimentar por conta própria e até plantar seus próprios alimentos.


Da mesma forma, o solo degradado carece dos recursos para se enriquecer. A utilização racional de insumos como esterco, calcário e pós de rocha, facilita o estabelecimento e crescimento iniciais das plantas, possibilitando maior produção de matéria orgânica e enriquecimento da vida no solo.


Mas estes insumos NÃO ENRIQUECERÃO o solo, pois o enriquecimento REAL é feito pela própria Vida: fungos, bactérias, minhocas, insetos, plantas.


Use fertilizantes com o propósito de desencadear ciclos de enriquecimento no seu solo e agroecossistema. E quando utilizá-los, seja generoso.


*edáfica = pertencente ao solo

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