Buscar

Lei da Agrofloresta #1 - SEMPRE TENHA PLANTAS PERENES EM SEU CAMPO

Atualizado: 28 de ago. de 2020


Perene significa literalmente “através dos anos”, ou seja, plantas perenes são aquelas que vivem através os anos. O termo é utilizado para diferenciar estas plantas de plantas anuais e bianuais, que vivem até 1 e 2 anos, respectivamente. Portanto, botanicamente, uma planta perene é qualquer planta que viva mais de 2 anos, e não apenas árvores se encaixam nesta categoria, mas também plantas como feijão andu, algodão, banana, orégano, tomilho, diversas gramíneas tropicais, palma, agaves e várias outras.


Na Agricultura Sintrópica, utilizamos o termo Placenta para definir o estágio de sucessão ao qual pertencem as plantas que atingem sua maturidade dentro de 2 anos. Este limite de 2 anos não é 100% estrito, no entanto. Mamoeiros podem viver até 10 anos, mas mesmo assim, são considerar uma planta da placenta, porque se estiverem em um ecossistema saudável onde há outras plantas de ciclo de vida mais longo, estas vão eventualmente crescer e sobrepor o mamoeiro, que irá, por consequência se “aposentar” dentro de 2 anos.


Eu poderia ter escrito esta lei simplesmente assim: “sempre tenha árvores em seu campo”, porque árvores são as plantas perenes de maior valor, e eu vou falar mais especificamente sobre árvores no final deste artigo. Por agora, eu quero abrir uma discussão mais ampla sobre a importância das plantas perenes como um todo, de modo a fornecer um primeiro passo para aqueles que ainda não estão prontos para adicionar árvores ao seu campo e também para ampliar a visão daqueles que acham que árvores são o único recurso disponível. Se tem uma coisa que eu aprendi após trabalhar como agricultor e consultor por 10 anos, é que nem todo mundo está pronto para adotar o pacote completa da agrofloresta em seus campos. Alguns vão migrar da monocultura convencional para sistemas agroflorestais multiestratificados de alta complexidade. Mas a maioria vai simplesmente adicionar feijão andu para seu campo de milho, e isso já é um ganho maravilhoso.


Em primeiro lugar, você vai concordar comigo com esta simples premissa: “É melhor ter uma próspera atividade microbiológica no solo do que não ter.”

A fertilidade do solo tem 3 faces: a biológica, a química e a estrutural (ou física). Nós, engenheiros agrônomos, normalmente estamos mais preocupados com a fertilidade química. Bons agrônomos, no entanto, vão considerar as 3 faces e dar igual importância a todas.


Na face química da fertilidade, você quer um solo com um pH adequado, com um balanço ideal entre nutrientes e com a correta concentração de cada nutriente específico. A fertilidade química do solo pode ser facilmente elevada com a utilização de fertilizantes e corretivos de solo, e isso nós sabemos fazer muito bem.

Na face estrutural, você quer um solo com uma estrutura de grumos, permeável, capaz de reter tanta água quanto possível sem encharcar, fofo (mas sem bolsões de ar) para que as raízes das plantas possam explorar tanto espaço quanto precisem sem um esforço excessivo, resiliente para que não se compacte com facilidade.

Na face biológica, você quer uma comunidade de microrganismos eficiente, que disponibilizará nutrientes para as suas culturas, transformará matéria orgânica crua em húmus, e se associará diretamente com as plantas, incrementando a sua imunidade e saúde.


É interessante notar que a fauna e os microrganismos do solo têm um impacto direto na fertilidade química E estrutural do solo. Microrganismos tornam nutrientes disponíveis (e há inclusive rumores sobre transmutação de elementos, mas isso é história para outro dia. Procure os trabalhos de Louis Krevran para mais informações) e criam a estrutura grumosa tão comum em solos de floresta. O ponto é que microrganismos, da mesma forma como qualquer outro ser vivo no planeta, necessitam de carbono para viver. E carbono é capturado da atmosfera por seres fotossintetizantes. Plantas irão alimentar diretamente microrganismos que se associam com elas, fornecendo açucares prontos, garantindo a sua sobrevivência.


Quanto mais tempo você mantém plantas vivas e verdes no seu campo, mais saudável será sua comunidade de microrganismos. Plantas perenes sempre estão lá, alimentando a sua fazenda de micróbio. Elas estarão no campo entre os cultivos, estarão lá se você decidir deixar o seu campo em pousio, elas sempre estarão lá, elas são perenes. O solo não deveria nunca estar exposto, mas sempre coberto, e se você é um produtor de culturas anuais, tais como hortaliças ou grãos, haverá um momento em que seu campo estará carente de qualquer planta viva. Isso é ruim, ou pelo menos não é tão bom quanto ter plantas vivas o tempo todo. Use plantas perenes para manter essa bomba de carbono no solo durante todo o ano.


Plantas perenes normalmente tem sistemas radiculares maiores e mais profundos. Isso terá diversos benefícios para você e seu campo. Em primeiro lugar, por serem maiores e mais profundos, eles irão agir como uma rede de proteção, que absorverá nutrientes lixiviados que suas plantas anuais já não conseguem alcançar. Imagine que as árvores no seu sistema criam um mecanismo de captura nas profundezas do solo, absorvendo todos aqueles nutrientes lixiviados e retornando eles para a superfície do solo através da ciclagem de matéria orgânica e bombeando cátions diretamente na solução do solo.


As plantas também irão liberar enzimas e ácidos no solo para disponibilizar nutrientes presos às moléculas de argila. Ainda há muito o que aprender sobre o que espécies individuais conseguem fazer a respeito disso, e tenho certeza de que nem começamos e compreender os meandros da relação solo-planta-microrganismos, mas saiba disso: plantas são equipadas com tecnologia de ponta para ter sucesso na vida. Portanto, não vou entrar nos específicos de “esta planta incrementa fósforo e esta outra potássio”, mas quero que você saiba que a maioria das plantas (especialmente as perenes) terá um impacto positivo de enriquecimento no solo onde vivem. Digo especialmente perenes pois estas têm mais tempo para trabalhar. Anuais e bianuais já tem uma necessidade de maior qualidade de solo, por elas não tem tempo de trabalhar. Elas necessitam de nutrientes prontamente disponíveis desde o início. É por isso que hortaliças, via de regra, são mais exigentes em fertilidade de solo do que grãos e frutas, por exemplo. Para efeito de comparação, em relação à disponibilidade de fósforo e potássio, hortaliças necessitam de até 4 vezes mais do que grãos e 8 vezes mais do que espécies florestais. Plantas anuais não estão realizando o trabalho, elas vivem a partir do trabalho de outras (isso não quer dizer que não existam plantas anuais altamente recomendada para melhoramento de solo, tais como feijão de porco, mucuna, etc.). A grande parte do trabalho real, de longo prazo será realizado por plantas perenes, especialmente árvores.

Antes de entrarmos no porquê das árvores (afinal, se estamos falando sobre agroflorestas, precisamos ter árvores na equação), vamos resumir os motivos para se ter perenes nos seus campos: